lembra III Casa Azul
2024
A intervenção ocorreu em duas etapas no dia 05/07/2024. A primeira etapa do trabalho ocorreu na Unifesspa- Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará com a palestra e a oficina “Lanternas de Memória: Ações entre Arte e Política”, com o apoio do artista, escritor e professor Gil Vieira Costa e do historiador, escritor e professor Janailson Macedo16. A palestra se desenvolveu sobre algumas ações artísticas e políticas relacionadas à memória e reparação e exibiram-se imagens das instalações anteriores de “Lembra”. A oficina consistiu em ensinar técnicas e dispor os materiais necessários à construção das lanternas. Foi sugerido aos presentes pensarem sobre nomes que deveriam ser lembrados e construírem lanternas com esses nomes. Algumas lanternas foram construídas. Todos os participantes foram convidados a comparecerem na etapa seguinte, de instalação das lanternas na Casa Azul. Na conversa com os parceiros locais, fui informado que dificilmente conseguiria entrar no pátio interno da Casa Azul.
O evento contou ainda com a participação de várias pessoas ligadas à arte, ciências sociais e movimentos políticos, entre eles os artistas Marcone Moreira e Antônio Botelho. Marcone desenvolveu uma lanterna com uma imagem, um triângulo que lembra uma geometrização indígena. Antônio Botelho em sua fala recordou o toque de recolher que vigorou em Marabá por décadas e do qual foi vítima, um silêncio imposto pelo Terror de Estado. A lanterna de Botelho tem em uma das faces a palavra “silêncio”, na outra face, a
imagem de uma forca.
A instalação foi realizada na Casa Azul, o maior centro de extermínio clandestino do governo militar, dedicado ao combate, tortura, assassinato e desaparecimento dos guerrilheiros do Araguaia, indígenas e pessoas comuns da região. A Casa Azul é localizada em Marabá-PA, no Km 1 da Rodovia Transamazônica. O espaço atualmente é utilizado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes- DNIT, sendo reivindicado por movimentos de memória e justiça. A segunda etapa consistiu na instalação de todas as lanternas produzidas durante a oficina e as lanternas com os nomes dos estudantes da UFRJ mortos no Araguaia.
Os participantes da oficina estiveram presentes durante a ação e instalaram suas lanternas. Todos os nomes escritos foram de vítimas locais. Uma das participantes realizou uma cerimônia de Umbanda ao acender a lanterna “Maria da Metade". No seu relato, ela chamou atenção para a perseguição que as religiões de matriz africana sofrem em Marabá. Alguns nomes significativos lembrados: “Aikewara Suruí”, povo indígina da região que foi perseguido na ditadura, vários indígenas Suruí foram obrigados a ajudar na perseguição aos militantes políticos; “Helenira Resende”, militante negra, líder estudantil e ex-vice-presidente da UNE, cursouLetras e Filosofia na USP, na rua Maria Antônia, em São Paulo, e foi presa durante o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, Helenira foi uma das principais lideranças da luta armada mortas no Araguaia; “Gabriel Pimenta” ator e advogado morto em 1982, representava 160 famílias de produtores rurais sem-terra contra latifundiários, foi morto por Nelito Cardoso, proprietário de terras e irmão do ex-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso.
A instalação foi realizada no pátio interno da Casa Azul. Durante o processo de instalação um segurança armado permaneceu vigiando a ação em atitude intimidatória. Também fui abordado por uma pessoa que se identificou como funcionário do DNIT. Ele me interrompeu e inquiriu sobre quem eu era e o que estava sendo feito. Respondi que era professor da Escola de Belas Artes, servidor público, estava ali trabalhando, realizando uma ação de memória e reparação, exigindo a localização dos corpos dos estudantes mortos da UFRJ e que desapareceram no Araguaia. Afirmei que provavelmente alguns deles haviam sido torturados e executados dentro da Casa Azul. O “funcionário do DNIT” disse que “não iria impedir meu trabalho, que só queria entender aquilo, que o terreno havia sido escavado extensamente e que não haviam encontrado nenhum corpo”.
Acredito que só consegui realizar “Lembra” no pátio interno do DNIT porque na véspera havia sido reaberta a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos18. Esse fato político criou um contexto novo, inibiu a censura e a imposição de restrições ao uso do espaço público. Uma violência corriqueira segundo os relatos dos marabaenses, que não imaginavam a possibilidade de “Lembra” ser montada onde foi.















