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lembra II Xambioá
2024

A montagem das lanternas de memória foi realizada em Xambioá-TO, epicentro do extermínio da guerrilha do Araguaia. Um terço dos estudantes da UFRJ mortos na ditadura foram assassinados na região do rio Araguaia. Todos os seus nomes estão nas lanternas de Xambioá. São eles Antônio Pádua Costa, Arildo Aírton Valadão, Áurea Eliza Pereira Valadão, Ciro Flavio Salazar e Oliveira, Guilherme Gomes Lund, Hélio Luiz Navarro de Magalhães e Jana Moroni Barroso.

O local exato da instalação foi o canteiro de obras da ponte que iria conectar o Pará ao Tocantins, Xambioá a São Geraldo do Araguaia. A instalação ocorreu no dia 03/07/2024. Na véspera, o ex-presidente Jair Bolsonaro realizou um comício no mesmo ponto, um terreno amplo e plano. Segundo relato dos moradores locais, ele gritou palavras de ódio contra os “terroristas comunistas que o exército limpou” e agradeceu ao exército brasileiro. A ponte encarna uma arquitetura em disputa. Sua finalização irá acelerar a mineração privada de calcário e dolomita em Xambioá.

“Lembra” aconteceu em silêncio, como gesto individual e inesperado no espaço público, foi uma ação repentina e que durou o tempo das últimas luzes de uma quarta-feira comum. A instalação estava próxima ao desembarque das balsas, que cruzam o rio incessantemente, com pessoas e veículos. Foi iniciada assim que desembarquei da balsa, quando pisei pela primeira vez no território tocantinense. Meu pai me acompanhou nessa viagem. Alguns transeuntes observaram à distância, poucos se aproximaram. Nas imagens das lanternas é possível ver o rio Araguaia e arredores. Ao fundo, São Geraldo do Araguaia e a Serra das Andorinhas, conhecida também como Serra dos Martírios, teatro das operações da repressão à guerrilha.

Na preparação da viagem para Xambioá contei com o apoio da equipe da Associação Fotoativa durante a “Residência Fotoativa Para Pesquisas Autônomas" que realizei em Belém-PA, durante julho de 2024. Na residência fui apresentado ao historiador Michel Pinho, que conhecia a região do Araguaia. Além de verificar com moradores locais as condições da estrada, me recomendou cuidado ao transitar na região para não me tornar “o próximo desaparecido do Araguaia”. Depois da violência extrema causada pela repressão militar no extermínio aos militantes políticos, a região foi cenário de marcos de violência territorial e política. A criação de Serra Pelada nos anos 80, distrito de Curionópolis, cidade fundada por Major Curió, um dos operadores do extermínio no Araguaia. Em tempo mais próximo, o Massacre de Eldorado dos Carajás, o conhecido assassinato de 21 membros do Movimento dos Sem-Terra- MST pela Polícia Militar, em 1995.

Através da historiadora Deusa Maria de Sousa, da Universidade Federal do Pará, também contactei o professor Paulo Lucena, diretor da Escola Estadual Eurico Mota, em Xambioá. Lucena foi testemunha ocular da repressão, conheceu muitos moradores envolvidos com os fatos e acompanhou os trabalhos da visita à cidade por membros da Comissão Nacional da Verdade. No dia seguinte à realização de “Lembra”, o professor apresentou os principais locais da cidade relacionados à Guerrilha do Araguaia, incluindo as edificações de tortura e morte utilizadas para aterrorizar e intimidar os moradores. Na época, da principal igreja e da escola era possível ouvir os gritos e gemidos das sevícias. Também apresentou o cemitério no qual foram resgatados os restos mortais de Maria Lúcia Petit, encontrados envolvidos em um paraquedas militar. Antes de se juntar ao Grupamento C no Araguaia, Petit atuava como professora na cidade de São Paulo, onde se formou no Instituto de Educação Fernão Dias, em Pinheiros. Maria Lúcia Petit é a única militante do Araguaia que teve seu corpo identificado.

ⓒ 2023 Pedro Meyer

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